quinta-feira, julho 19, 2007

Mais política na tragédia

frase do dia: "A culpa não é do presidente Lula; a culpa não é do presidente Lula." - Walfrido Mares Guia

Conforme prenunciado na madrugada de ontem, setores da situação já enxergam, com olhares de kadetes paranóicos, golpismo em qualquer visão política que se dê sobre a tragédia do vôo da TAM. Estamos nos precipitando vendo o lado político da questão? Mais alguns fatos.

Mais de 50 minutos após o acidente, a Infraero ainda não sabia:
- o nº do vôo - pensou no 5018, vindo de Porto Alegre (era o JJ3054);
- o tipo de avião - talvez um Airbus 320 (A320);
- quantos passageiros estavam no avião - talvez 170, lotação máxima (176, na verdade, sendo 155 passageiros);
- se algum carro foi acidentado na pista da disputadíssima Washington Luiz.

Na segunda-feira, um dia antes do acidente, um avião pequeno já havia derrapado na pista, e um avião da própria TAM, deslizado.

A pista de Congonhas foi recentemente reformada. Os pilotos reclamavam da falta de aderência. Hoje concluiu-se que a pista estava incompleta e sem condições para manobras sob chuva.

Conforme publicado neste blog ontem, o Governo já havia sido avisado do problema dos controladores e seus "pontos cegos". O acidente da Gol, que matou 154 pessoas, completa 10 meses no dia 30. O sistema produziu duas grandes tragédias num intervalo de 10 meses.

No dia 22/06, a CPI do Apagão Aéreo cobrou de Waldir Pires diálogo com controladores, enquanto Lula "cobrou providências". O presidente da Infraero disse que o fim-de-semana "será complicado". Membros da CPI consideraram atitude do Governo, frente à crise, "preocupante".

Nessa quarta-feira, Lula convocou um reunião de emergência para debater o acidente.

ATENÇÃO: O que se discute em uma reunião "de emergência", 2 anos após relatos sobre a segurança do controle de tráfego, quase 10 meses após o acidente da Gol, 9 meses após o início do caos aéreo, um dia após o acidente da TAM? Como posar para as câmeras? Como será seu discurso tirando o seu da reta? Marta Suplicy estava na reunião? (não encontrei nenhum pronunciamento seu na internet até o momento) Alguém mais aposta que seu primeiro pronunciamento oficial poderá conter as mesmas palavras usadas no caos urbano do PCC, lembradas por este escriba ontem? Lula, envergonhado pela vaia no Maracanã, nunca pareceu envergonhado dos aeroportos.

Quantas vezes Lula deu um prazo para resolver a crise aérea?

A Veja dessa semana, em sua primeira matéria "central" (após as frases da seção Veja Essa), traz a chamada Um Buraco Negro Chamado Sivam, sobre os pontos cegos do controle aéreo. Sete páginas antes, há uma manchetinha avisando que Lula pode privatizar setor aéreo, com uma foto de um avião aterrissando em... Congonhas, com a legenda Congonhas: sem dinheiro privado, o caos continua.

Veja, JN, Fantástico, Folha, Estadão, O Globo, Zero Hora, A Nova Corja foram alguns dos veículos a chamar a atenção para os aeroportos, nos últimos meses. Não encontrei palavra sobre o caos numa Carta Capital, Caros Amigos ou Hora do Povo. O Observatório da Imprensa, seguindo afirmações governistas, disse que a culpa era do "crescimento econômico". Claro, senhores. É só pensar em como são tumultuados os privados aeroportos do Primeiro Mundo.

Agora, setores e imprensa governistas também insistem em enxergar golpismo. Está-se politizando o que é uma fatalidade ou ligando-se pontos que vêm sendo debatidos há meses, e vinham sendo até mesmo poucos dias antes da tragédia?

O "jornalismo" lulista está insistindo na comparação de duas imagens de aviões fazendo manobras na pista - um leva 11 segundos, enquanto o avião do acidente leva 3. A primeira providência de quem tem a fé no partido sobre qualquer circunstância, por mais sangrenta que seja, é querer retirar qualquer responsabilidade sobre seus trabalhadores incompetentes. Agora, apostam que foi um erro do piloto estar tão acelerado. Aparentemente, em velocidade de arrematação.

Para fazer uma rápida retrospectiva de frases:

"Relaxa e goza, porque depois você esquece todos os transtornos."
- Marta Suplicy, ministra do Turismo, em uma assustadora crise de dondoquice e sorrindo de satisfação

"A crise é devida ao crescimento econômico."
- Guido Mantega, ministro da Fazenda, encontrando o perigo na classe média, que insiste em pagar impostos

"Investimos pouco. (...) Pedimos paciência."
- José Alencar, vice-presidente, ex-ministro da Defesa

"A culpa não é do presidente Lula; a culpa não é do presidente Lula."
- Walfrido Mares Guia, no Jornal Nacional de ontem (quarta)

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